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[20/11/99
- Jornal "Estado de São Paulo"]
O combate
às drogas (Carlos Alberto Di Franco)
O presidente
Fernando Henrique Cardoso encaminhou recentemente ao Ministério da Justiça,
para análise, um anteprojeto de lei, elaborado pela Secretaria Nacional
Antidrogas (Senad), que prevê infiltração de agentes policiais no narcotráfico.
A idéia, segundo o secretário Nacional Antidrogas, Walter Fanganiello
Maierovitch, é dotar a legislação brasileira de um instrumento que em
todo o mundo é considerado eficaz para o combate ao tráfico de drogas.
O anteprojeto determina que a infiltração dependerá de autorização judicial
e a diligência, caso deferida, será acompanhada pelo Ministério Público.
Pela legislação
em vigor, como observou o secretário, um policial que se infiltrasse no
mundo do crime, hoje, seria considerado criminoso, mesmo agindo com a
aprovação de seus superiores e com a intenção de desbaratar uma quadrilha.
Embora a lembrança dos excessos praticados durante a ditadura militar
possa inibir o avanço dessa iniciativa, é bom lembrar que o funcionamento
de serviços de inteligência - e a infiltração é uma típica atividade de
inteligência -, nos moldes dos que operam nos países do Primeiro Mundo,
nada tem de antidemocrático. Basta que se limitem às funções para as quais
foram criados. Maierovitch deu como exemplo da eficácia da infiltração
policial a operação "Green Ice", que envolveu oito países - incluindo
Estados Unidos, Itália, Espanha e França - e conseguiu, em um único dia,
prender 168 grandes narcotraficantes e apreender drogas no valor de US$
155 milhões.
Outra proposta
da Senad, não menos relevante, é a de monitoramento, sem aviso prévio,
da vida financeira - exame do crescimento patrimonial, movimento de contas
correntes, cartões de crédito, no Brasil e no exterior - das principais
autoridades envolvidas no combate às drogas, incluídos o chefe do Gabinete
de Segurança Institucional da Presidência da República, e o próprio secretário
nacional antidrogas e seus familiares. A proposta é oportuna. Afinal,
segundo declarações do secretário-geral das Nações Unidas, o mercado de
drogas movimenta de 4% a 5% do PIB planetário. E a força corruptora do
narcotráfico concentra-se, por óbvio, na cooptação daqueles que podem
impedir a ação do crime organizado. Os primeiros resultados da CPI do
Narcotráfico, reveladores de uma imensa malha de cumplicidade entre autoridades
e o crime organizado, mostram a importância da iniciativa da Senad. A
estratégia antidrogas do governo federal, a exemplo do que está acontecendo
nos Estados Unidos, não se esgota num esquema puramente repressivo. Investimentos
em programas de prevenção e recuperação de dependentes estão ocupando
crescente espaço na agenda de combate ao narcotráfico.
Num gesto
que simboliza a orientação do governo brasileiro de apoiar e estimular
iniciativas bem-sucedidas no campo da recuperação de viciados, o secretário
nacional antidrogas visitou a Comunidade Terapêutica Horto de Deus
em Taquaritinga, interior de São Paulo. Investindo num conjunto de providências
que vão às causas profundas da dependência, o programa dessa instituição
tem apresentado índices de recuperação entre 50% e 60% das pessoas que
procuram ajuda. Uma política antidrogas deve sustentar-se sobre dois pilares.
De um lado, a repressão enérgica e sem tréguas ao narcotráfico. De outro,
campanhas eficientes de prevenção do vício e apoio às entidades idôneas
que trabalham na recuperação de dependentes químicos. É o que se espera
que o governo faça.

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