[01/2002 - Jornal "Estado de São Paulo" on-line]

Drogas e violência   (Carlos Alberto Di Franco)

Em declarações à imprensa, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Marco Vinícius Petrelluzzi, definiu o combate às drogas como prioridade de sua gestão. "Vamos atacar no centro e nos bairros, pois as drogas, principalmente o crack, estão ligadas cada vez mais aos assassinatos e aos assaltos", sublinhou o secretário. A repressão ao crime, particularmente aos delitos ligados ao tráfico de drogas, reclama uma profunda revisão da estrutura policial.

O mercado das drogas movimenta muito dinheiro. Seu poder corruptor anula, freqüentemente, as boas intenções que costumam permear projetos puramente repressivos. Sem uma boa utilização dos recursos disponíveis - aliás, cada vez mais escassos por causa da crise financeira - e sem uma adequada política salarial e de qualificação de pessoal, planos excelentes acabam reduzidos a uma simples carta de princípios.

Policiamento ostensivo e repressão, elementos indispensáveis ao combate ao narcotráfico, são deveres elementares do Estado. Mas o êxito na política antidrogas não se esgota numa simples operação policial. O problema é muito complexo e seu encaminhamento exige uma corajosa política de prevenção e de recuperação de dependentes. Um adicto na ativa é um aliciador e multiplicador exponencial da disseminação do vício. Um recuperado passa a ser um poderoso aliado na guerra contra as drogas. A luta, sem dúvida difícil e com resultados modestos, pressupõe um grande mutirão preventivo dirigido aos adolescentes e às crianças. Nos últimos anos, dos inúmeros traficantes presos, muitos eram menores. Com o consumo de drogas cresce a violência entre os jovens, a banalização do crime e a impotência dos pais e professores.

O general Barry McCaffrey, principal executivo da política antidrogas do governo Clinton, foi responsável pela mudança da estratégia daquele país. A prioridade à repressão foi substituída pela batalha da prevenção. Do alto de sua experiência, McCaffrey defendeu um forte investimento em programas de prevenção e recuperação de dependentes. "Acho que o mais importante não são o dinheiro e os equipamentos. A coisa mais importante é dividir pesquisas em métodos de tratamento e prevenção de drogas", enfatizou.

O saldo positivo da estratégia norte-americana, crescentemente focada na prevenção e na recuperação, é um bom modelo para a política nacional de combate às drogas. É preciso que se entenda que é muito mais difícil lidar com problemas já instalados do que prevenir novos problemas. A luta contra as drogas reclama um apoio mais efetivo e desburocratizado do governo e da iniciativa privada às instituições sérias e aos grupos de auto-ajuda que lutam pela recuperação dos adictos e prestam um apoio importante aos seus familiares.

Alguns serviços especializados oferecem relevante suporte aos doentes. O Grea (setor vinculado ao Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo) é um centro de referência no tratamento de viciados. Destaca-se, também, o eficiente trabalho promovido pelos grupos de Narcóticos Anônimos (NA) e Amor Exigente e pela bem-sucedida experiência das Comunidades Terapêuticas. Sem uso de medicamentos e investindo num conjunto de providências que vão às causas profundas da dependência, essas comunidades têm obtido um surpreendente índice de recuperação. Segundo Leo de Oliveira, diretor de tratamento da Comunidade Terapêutica Horto de Deus, em Taquaritinga, interior de São Paulo, o programa tem apresentado índices de recuperação entre 40% e 50%.

O combate às drogas não se limita à urgente e necessária repressão policial.

Esse combate começa na família e nas salas de aula, mas requer sólido apoio às iniciativas capazes de reeducar e reintegrar os jovens ao convívio social.